Para ti, o que partilhamos foi uma trivialidade do quotidiano. Para mim, entretanto, foram dentre os mais sublimes dias destes últimos anos.
Nossa jornada iniciou-se nas teias da internet. Ela, no calor do Brasil. Eu, na Itália distante. Nossas conversas se alongaram, deliciosamente, até transcenderem a mera casualidade. Por ironias do destino, vi-me compelido a partir rumo a Portugal. Assim que partilhei esta mudança, surgiu outro notável capricho do destino: ela estava prestes a empreender uma visita à mesma terra.
Nossos diálogos abarcavam um vasto espectro de tópicos, desde as trivialidades do dia a dia até as profundezas das indagações existenciais. Sua abordagem para enfrentar tais inquietações era a busca pelo máximo de experiências. Não julgo tal ânsia em si, mas a busca por escapar do desconforto e da dor parecia inseparavelmente ligada a essa procura por prazeres. Apesar do hedonismo pregar equilíbrio, este se esquiva quando a “fuga da dor e do sofrimento” figura como elemento central de seus princípios.
Partilhei morada com almas ávidas pelo conforto, cada qual equipado com seus aparelhos e almofadas para todos os cantos. Atormentavam-se pelos próprios comportamentos, quando eram comportados pelos outros. Convivi com um que se entregou a excessos de álcool, drogas e luxúria. Não o vejo tão diferente dos adeptos do conforto, nem da jovem em busca de sensações e experiências prazerosas, nem de mim.
A distinção reside na abordagem. Durante muito tempo, flertei com drogas, bebida e jogos eletrônicos, ultrapassando os limites da prudência. O espelho reflete meu hedonismo toda vez que me encaro, toda vez que hesito em abandonar o meu recinto. Talvez tenha sido o hedonismo que me levou a essa peregrinação de mudanças de país, ou até mesmo o motivo primordial de minha partida inicial. O privilégio de ter tido pais batalhadores, de habitar uma nação minimamente estável e de viver em uma época de relativa prosperidade me conferiu recursos em excesso para dissipar.
No dia que a menina das sensações e eu nos encontramos, foi divertido. Não o melhor encontro do mundo, pois eu estava mal da barriga, mas nos divertimos. Após isso, ela se tornou distante. Compreendia que ela tinha seus próprios planos e em nenhum momento senti sua obrigação de me convidar para todos eles, mas, ainda assim, minha frustração crescia. Meus pensamentos em relação ao nosso primeiro encontro cederam espaço a fantasias que jamais deveriam ter germinado. Minhas inseguranças se tornaram evidentes. “Será que não fui divertido o suficiente? Deveria ter sido outra pessoa?” Contudo, minha mente, naquele momento, insistia que eu deveria permanecer fiel a mim mesmo, tal como fora em nossas conversas virtuais. A ideia de adotar comportamentos e palavras diferentes me parecia estranha. No entanto, a promessa implícita de passarmos tempo juntos, de nos conhecermos melhor, desvaneceu-se logo após o primeiro dia.
Ela não enviou uma única mensagem. Fui eu quem buscou, perguntando se faríamos algo juntos. “Vais ao concerto amanhã?” Confirmado, eu iria. “Encontramo-nos lá.” Cheguei cedo, logo no início do evento, pois aprecio testemunhar o desenvolvimento desses acontecimentos. Ela apareceu após três longas horas, sem sequer me contatar. Nosso primeiro contato após sua chegada foi estranho, carente de qualquer afeto. Ela se aproximou e parou a meu lado, sem sequer lançar um olhar na minha direção. Arrisquei um beijo em sua bochecha, mas a resposta foi fria, desprovida de engajamento.
Fui ao show com a expectativa de que ela não desejasse me encontrar, ou pior ainda, que já estivesse acompanhada. Quando menciono sua busca por experiências e sensações, devo observar que ela era notoriamente promíscua. Uma mulher deslumbrante, talentosa e cativante, alvo da atenção de inúmeros homens e mulheres. Ela solucionava suas angústias existenciais desse modo. Solucionar, talvez, seja uma palavra demasiadamente pesada, pois a verdade é que ela se apoiava em vários medicamentos psiquiátricos. Em nosso primeiro encontro, ela frequentemente discorria sobre suas recentes proezas sexuais, sem dissimular sua promiscuidade, mas anunciando-a com desinibição. “Tenho apenas minha buceta para compartilhar”, proclamava. Ouvir tais palavras me fazia ansiar por resgatá-la desse estilo de vida. Nenhuma filosofia sólida ou estudo de psicologia sugere que essa seja uma solução viável para o existencialismo. Ao contrário, as tradições filosóficas que moldaram o pensamento ocidental, desde as tradições judaico-cristãs até as escolas pagãs, advogam pelo controle dos impulsos e pela contemplação da vida. Percebo, sinceramente, que ela aprecia as pequenas coisas e possui uma vida interior tumultuada, aproximando-se de alguma contemplação. Mas errônea é minha ideia de resgatá-la desse caminho. Somente ela detém o poder de fazê-lo.
Experimentamos momentos agradáveis durante o show e depois perambulamos pelo coração de Lisboa, conversando longamente. Ela compartilhou histórias de sua vida, incluindo seus relacionamentos desde a tenra idade de treze anos e sua luta contra a depressão. Salientou também que sempre abordava esses assuntos com as pessoas, como se quisesse deixar claro que nossa conexão não era um momento especialmente favorecido pelo nosso encontro, mas mais uma de suas escapadas. Desnuda-se facilmente e com frequência. Isso é o poder do reforço social: você aprende a acionar as alavancas certas, até perceber que se tornou escravo delas. Permanecemos juntos até o alvorecer, e ela mesma descreveu o encontro como “muito bom”. No mesmo dia, partiu para outra cidade com suas amigas.
Continuamos a nos comunicar durante dois dias e, eventualmente, decidi visitá-la na outra cidade, seu último dia em Portugal. Novamente, desfrutamos de um dia agradável. Ela mesma destacou como tudo fluía com naturalidade. Uma estranha nos abordou e proclamou que éramos um casal adorável, que as pessoas eram abençoadas por nossos sorrisos compartilhados. Durante o show anterior, havia ocorrido algumas vezes de pessoas sorrirem para nós, devido à nossa alegria em estar juntos, a desfrutar daquele momento em conjunto.
No entanto, notei que ela mencionava frequentemente alguns compromissos com outros, inclusive em sua casa. Por que a questão da casa era relevante? Ela sugeriu que eu gostaria muito de sua nova residência, mas não me convidaria a visitá-la. Que tipo de comentário é esse? De qualquer forma, ela havia comprado diversos presentes para um amigo, o mesmo que não raramente estava em sua casa. Isso era algo raro para ela permitir, então perguntei se ele era um de seus namorados. Claro, era. Já suspeitava da resposta, mas senti uma sensação de desamparo quando ela confirmou. Quem sou eu para ela? Apenas um raio fugaz de sol em um dia cinzento? Sou efêmero como um sopro de vento durante uma tempestade ou uma onda passageira durante uma noite de amor na praia? Meu prazo de validade estava estabelecido de forma inequívoca, e seu desejo de manter contato era mínimo. Posteriormente, ela admitiu que sequer havia salvado meu número em seu celular. Apesar de compartilhar coisas comigo em uma rede social, eu não era uma de suas conexões. O que eu representava para ela?
Quem sou eu, afinal? Por que me agarro a isso? Sempre soube que tudo isso seria efêmero. Como que poderíamos manter algo à distância? Não é nem algo que desejo. O conforto de não ter que buscar incessantemente uma parceira talentosa, bela e compatível é tentador. Eis novamente o meu hedonismo: essa era minha fuga das questões existenciais, e eu não queria perdê-la, embora sempre a perca. Minha afeição pelo romantismo idealista é um reflexo do meu hedonismo. Será que isso se aplica às outras pessoas? Não importa. O que importa é o que eu faço e como existo comigo mesmo. Os outros são apenas isso, os outros, distantes. Até o momento, pertenço aos últimos homens, enclausurados pela covardia e pelo conforto.


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