Isolamento Linguístico

Uma das maneiras que novas espécies surgem é pelo isolamento geográfico. Uma população, por alguma alteração no ambiente, se separa da outra. Gerações e gerações depois, elas podem ter diferenças tão significativas que o cruzamento entre essas duas populações deixa de produzir proles férteis.

A mesma dinâmica acontece com as línguas. Nos limitarmos a uma língua é nos isolarmos em uma comunidade verbal, que pode ter diversos vieses que limitam a sua interpretação do mundo. Mas qual será tal limite? Qual o problema do português como língua do artigo na hora de publicá-lo? 

O problema epistemológico é solucionado pelo método. Como propõe Aristóteles, descobrimos a nós mesmos enquanto descobrimos o mundo. A lógica entre os elementos importa muito mais do que o nome que damos aos elementos. A estrutura científica é a mesma em qualquer língua. 

Levando em consideração a questão do método como solucionada (podemos discutir isso mais pra frente), o grande problema da língua é deixarmos de nos reproduzir com a network global, pois o portunhês não é lá muito efetivo. Para dar contexto: o português é falado no Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Cabo Verde, Timor-Leste, Macau, e São Tomé e Príncipe. Segundo os dados da Scopus de 2020, o Brasil é o 14º colocado no quesito produção científica, o primeiro entre os lusófonos, com 89,241 publicações; Portugal em segundo, na colocação 28º, com aproximadamente um terço das produções do Brasil; Macau em terceiro, 78º colocado, com menos de 10% das produções de Portugal. O número de produções diminui até São Tomé e Príncipe, com 9 publicações em 2020. A produção é escassa nesses países. Se eles falassem inglês, seria melhor? Considerando o ambiente político-econômico-educacional da grande maioria deles, provavelmente não. 

O jornal El País comenta que 12% das publicações feitas por brasileiros (aproximadamente 10,709 em 2020) e 1% das publicações feitas por portugueses (aproximadamente 292 em 2020) são em suas línguas oficiais. Apesar do El País chamar de “ditadura da língua” (pelo menos usam as aspas para “aliviar” a proposição), ao mesmo tempo aponta que o problema não é publicarem em inglês, mas sim não haver traduções suficientes. Meus caros, o fato é que uma língua que se tornou predominante. Não existem leis constitucionais obrigando os autores a escrever nessa língua. Você não é obrigado a usá-la, mas sabendo de que é possível atingir um maior número de pessoas, talvez aprendê-la seja benéfico para você e, com as as consequências positivas deste alcance maior, você consiga pagar o custo de produzir em uma língua menos lucrativa, como o português. Como  o aprendizado de comportamentos econômicos não está na pauta do MEC, atribuem narrativas que danificam o potencial de cada um de se desenvolver.

No artigo “Publish (in English) or perish: The effect on citation rate of using languages other than English in scientific publications”, de 2016, aponta que outras variáveis influenciam na quantidade de citações que um artigo, como em qual paper está sendo divulgado, quantidade de páginas e ano da publicação.  

Tendo em vista esse contexto, se faz pertinente que as pessoas se instrumentalizem a fim de se inserir com maior precisão nesse mar de conhecimento; ou, como gosto de falar, nessa network de comunicação. O próprio artigo reflete sobre o uso de inteligências artificiais e tradutores online, que massificam o alcance. Apesar de quebrar o galho, ainda são recentes e estão sujeitas a erros. Mesmo assim, o baixo custo e fácil acesso a essas ferramentas faz mais do que qualquer reclamação feita pela classe intelectual dominante. Saber inglês não te faz menos brasileiro, nem menos espanhol, nem menos nada. Você se insere numa rede de comunicação global e isso te permite trocar informações com pessoas de vários países. Te faz mais adaptado a um ambiente de trocas. Te deixa livre para não depender da tradução de terceiros, que pode ser enviesada por ‘n’ razões. A liberdade está em se instrumentalizar. Seja nadando, fazendo um barco ou usando um barco de outros, é o jeito de sair da ilha.

2 respostas a “Isolamento Linguístico”

  1. Avatar de Mestre Siegfrito

    Gostei bastante do seu texto. Isso me botou pensativo por um tempo, sabe? Demorei até para escrever o comentário, mas vou dar um pitaquinho.

    Acho bem necessário aprender inglês se quiser ter um certo destaque, não só na divulgação científica, como em qualquer outra área de produção de conteúdo. O fato é que mesmo os vídeos e as fotos estão ficando mais e mais encurtados. Há uma demanda de conteúdo curto que faz com que textos, vídeos com mais de três minutos e fotos que não sejam exatamente sobre corpos bonitos ou gatos fofos, sejam prontamente “skipadas” (usando um anglicismo aqui haha) em busca do próximo conteúdo humorístico, informativo ou horripilante.

    É triste, mas se quiser prezar um pouquinho pela audiência, fazendo um trabalho bom, completo e útil de forma geral, é preciso aprender o inglês, ou pelo menos saber o mínimo para usar um tradutor ou IA sem deixá-lo zoar todo o seu contexto.

    Excelente percepção.

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    1. Avatar de Vinicius Souza Vitalli

      Fico feliz que meu texto contribuiu para uma boa reflexão!
      Obrigado pelo comentário.

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