Em uma jornada de desconexão virtual, o autor mergulha nas complexidades da busca pela realidade, apenas para descobrir que a fuga persiste.
Ontem resolvi sair de casa e abandonar o meu fiel escudeiro: o computador. Quando estou conectado a ele, mesmo que as minhas ligações virtuais sejam valiosas, reconheço que este mundo, aos poucos, me afasta da realidade. Apesar de acreditar que o concreto seja superestimado por aqueles que jamais experimentaram a emoção de dar vida a um programa, ainda me surge a vontade de sair.
Mas essa urgência pela realidade não é uma tentativa de cura, é na verdade um experimento: a análise do comportamento de um primata propositalmente isolado para então ser abruptamente reintegrado.
Uma cura verdadeira, uma reversão completa desta ausência de contato com a realidade, exigiria um investimento que sinceramente questiono se justifica.
A noite começou com risos e brindes, mas, ao findar, me vi naufragando nas sombras do álcool. Se o primeiro gole foi um remédio para a ansiedade e o desconforto, todos os demais foram um veneno para o autocontrole.
As primeiras amizades ofereceram a oportunidade de desfrutarmos ervas proibidas, indicando que a falta de respeito pelas convenções morais funciona como um elo social eficaz.
Importunei amigos com questões existenciais mais profundas do que a ocasião permitia como consequência do inato desejo de pertencimento da minha espécie.
Enquanto seguia meus amigos, distraí-me com um cachorro. Ao brincar com a peste, acabei me afastando do grupo. Andei sem rumo pelas ruas, atrás de um rosto amigo, mas as luzes pareciam dançar.
A luz do dia já clareava o céu quando um estranho me acordo. Estava em escada. Desorientado, levantei e perambulei pelas ruas já movimentadas, me sentindo um estrangeiro, perdido em um mundo que, há poucas horas, me era familiar.
Das diversas formas de evasão, experimentei apenas mais uma. Aparentemente, minha aptidão para a fuga supera, de longe, meu senso de orientação.


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