Escravos Cardíacos dos Sinos

Toda vez que você sede ao impulso de abrir uma rede social, você também se coloca sob o perigo de perder a si mesmo não só superficialmente, durante algumas horas do seu dia, mas igualmente de modo profundo.

Imagine alguém virtuoso, construa a imagem hipotética do ser-humano mais admirável do planeta e, a não ser que você seja uma criança idolatrando o líder hedonista de uma banda de heavy metal, imaginará alguém que, de forma geral, não sucumba aos próprios vícios; e o seu impulso de abrir uma rede social para consumir entretenimento ou checar curtidas não passa disso, um vício.

Sim, é impossível existir um ser humano totalmente livre deles, porém, não é o fato de não os tê-los que te tornará uma pessoa mais virtuosa, mas sim o ato de tentar se livrar de cada um deles na medida em que são descobertos.

Este controle, esta insistente luta por libertação das mais diversas amarras dopaminérgicas, é a indicação de força e determinação necessárias para seguir o caminho em direção ao ser humano que você imaginou e decidiu que gostaria de ser.

Na parábola da biga de Platão está a representação da alma humana imperfeita. Os cavalos são as nossas paixões, nossos impulsos irracionais e atrás, segurando as rédeas, está o condutor representando a razão. A parábola da biga é um pouco mais extensa, ainda existem outros símbolos, e as idéias de Platão e os demais filósofos clássicos sobre as virtudes são muito mais profundas do que isto, mas resumidamente, para ele, a vitória diária da razão sobre as paixões seria o principal meio para se guiar em direção às virtudes, pois sem ela, sem um condutor, nos perderíamos dos próprios ideais.

A esta altura da modernidade, você já deve saber que as redes sociais funcionam para pregar sua atenção e vender publicidade. Seja na forma de notificações ou de conteúdos sensacionalistas, elas injetam pequenas doses de dopamina como recompensa para o seu cérebro continuar vidrado. Por mais que você ache que utilizar as redes sociais de nada afetam sua jornada para se tornar um ser-humano melhor, você sabe que se transformar em um zumbi viciado em dopamina com certeza atrapalharia. Então toda vez que você se pegar checando curtidas ou se distraindo com postagens de qualquer rede social, lembre-se deste circulo vicioso e o quebre.

Cortar o mal pela raiz, deletar os aplicativos e os perfis, talvez seja a solução ideal, porém, a modernidade está tão entrelaçada a estas redes que, em muitos casos, desaparecer seria desperdiçar a possibilidade de obter algum conhecimento valioso, ganhar a vida ou mais poder.

Para Aristóteles, alcançar a virtude requer tanto empenho quanto para Platão, porém, este ideal não se localiza exatamente num extremo, mas no equilíbrio entre as coisas. A coragem como uma virtude, por exemplo, se localiza entre a imprudência e a covardia. E se, assim como ele, considerarmos que a essência humana seja a razão, porque é isto que nos diferencia de todos os outros animais, a nossa virtude mais essencial se localizaria entre a razão pura e os sentimentos. Ser um humano extremamente sensível, criativo e ao mesmo tempo lógico e articulado, resultaria em um alto grau de singularidade, isto é, ser único e portanto insubstituível. Uma alta singularidade seria um dos principais indícios de uma vida virtuosa.

Caso você não esteja disposto a sair de uma vez por todas das redes, utilize-as de modo sábio e criativo. Se o mais fácil é compartilhar opiniões vagas sobre qualquer assunto, busque, crie e compartilhe uma opinião fundamentada. Se o mais comum é fingir uma vida perfeita, exponha a humanidade e a aprendizagem dos seus fracassos. Se o mais cômodo é consumir, produza. Não entenda produção aqui como uma vitória do capitalismo sobre seu horário de lazer, porque o maior beneficiado de se concluir coisas difíceis, profundas e com algum valor, é você.

8 comentários em “Escravos Cardíacos dos Sinos

  1. Sempre achei as redes sociais viciantes, sempre observei que as pessoas ficavam presas às postagens, sempre dependentes de novas postagens, sempre na espera, felizmente nunca me deixei dominar pela rede. Acesso as redes sem deixar que ela me domine.

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