O Empoderamento dos Hipócritas

Dan Bilzerian foi cancelado. Ele é um empresário playboy, que posta muitas fotos com modelos utilizando sua marca de biquíni; ou seja, pouquíssima roupa. Tanto o corpo dele como o corpo delas estão dentro do que pode ser chamado de “padrão normativo da beleza”; ele, definido e musculoso; elas, definidas e magras. A discussão levantada é sobre a objetificação do corpo da mulher, visto como mero instrumento para os prazeres de Dan; aqui, o aspecto sócio-cultural é problematizado: mulheres sendo objetos para o prazer dos homens. Não vejo como uma discussão muito fácil, pois mexe com as emoções de muitas pessoas. Graças à liberdade de expressão, venho aqui compartilhar meus pensamentos.

A luxúria e a objetificação dos corpos têm sido elementos culturais que só aumentaram sua frequência nestes últimos anos. Podemos observar como as letras do ‘funk carioca’ foram se tornando cada vez mais explícitas, ao mesmo tempo que se espalharam rapidamente entre todas as classes sociais do Brasil. Como cultura marginal, suas características de objetificação das mulheres é relevada, fruto do duplipensamento, isto é, aceitam duas ideias antagônicas (objetificar a mulher é ruim x cultura marginalizada objetificando mulher não tem problema) como válidas e reais. Com cada vez menos roupa, artistas do funk demonstram o chamado empoderamento feminino, apesar de terem corpos parecidos com as musas de Dan, vestindo roupas que conseguem ser mais promíscuas e em situações ainda mais sexuais. Mas os funks são hinos do empoderamento da favela, dos negros e das mulheres, apesar de enaltecer a pobreza, a avareza, a luxúria…

A linha entre o que é empoderamento e o que é objetificação está longe de ser clara. Talvez o foco seja na presença de um homem demonstrando êxtase na presença de tais mulheres; bom, no funk isto também aparece. Portanto, não deve ser isso. Talvez seja o perfil estético das pessoas… Mas como já pontuamos, também é algo presente em ambos os contextos. Inclusive, mulheres de todos os tipos postam nas redes sociais fotos usando biquíni, muitas vezes com poses sugestivamente sexuais, e não reclamam destas serem as mais curtidas em seus perfis com milhares de seguidores. Qual o motivo das pessoas curtirem mais essas fotos? Se a demografia for de que a maior parte das curtidas são de homens, o que é possível concluir disso? Empoderada ou objetificada? Sugiro um exercício: entrem em seus próprios perfis e pensem: quais fotos Dan iria curtir?

A exibição do corpo como objeto de marketing está presente até mesmo em passeatas feministas, cujos seios apontam para todas as direções, buscando viralizar suas ideias (ou apenas seus corpos, vai saber).

Pensando pelo lado da escolha, da mesma forma que mulheres usam roupas curtíssimas em festas, enaltecem seus próprios corpos em troca de likes nas redes sociais, o que faz as musas de Dan não se encaixarem nisso? Por que elas não podem ter escolhido estar ali? Seja lá quais os motivos que as fizeram escolher, o fizeram. Ninguém é obrigado a gostar da escolha delas; na verdade, o legal é justamente as divergências culturais que esses diversos nichos das atividades humanas tem. Há modelos que não fazem ensaios sensuais, nem usam biquíni etc. E há atrizes pornô. O mercado da objetificação do corpo é vasto e aqueles que adoram uma chuva de likes nas fotos sensuais, participa ativamente dele. Empoderamento ou objetificação?

Enfim, dois pesos e duas medidas. Mais uma vez a frase “chame-os do que você é, acuse-os do que você faz” aparece no contexto do ativismo político. Será um sinal de que esses movimentos são tomados por confusões gigantescas em suas estruturas de ideias? Não, deve ser o capitalismo e o patriarcado atacando novamente, claro.

É possível destacar o elemento “luxúria” e discutir seu possível impacto na sociedade, assim como as possíveis causas desses elementos estarem presentes da maneira que estão em nossa cultura, sem nem ao menos fazer referência a um grupo específico. Já abordei em outros textos o pensamento do filósofo Spinoza e do psiquiatra Victor Frankl, mas vale a pena retomá-los aqui. Ambos consideram que a ênfase na sexualidade é problemática; o primeiro, considera que ela é uma distração das atividades virtuosas, ou seja, ao invés de você disponibilizar tempo e energia para produzir conhecimento, solucionar problemas etc. você corre atrás da satisfação sexual; o segundo, que ela é um sintoma de uma vida vazia de sentido. Caso tenham curiosidade sobre esses assuntos, indico os outros artigos aqui do blog.

Gostaria de destacar que:

1- Não sou religioso, mas utilizo os conceitos de pecado por estarem presentes com frequência no imaginário social.

2- Não estou falando para virarem celibatários.

3- A vida é sua, faça o que quiser. Só mantenha a coerência lógica, para não tornar o seu mundo uma confusão e espalhar isso para os outros.

Publicado por Vinicius Souza Vitalli

Psicólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (Bachelor's in Psychology). Metendo o louco pelo mundo para ver no que dá. Atualmente in Dublin. (Currently living in Dublin). Tenho o objetivo de auxiliar as pessoas com seus respectivos objetivos.

12 comentários em “O Empoderamento dos Hipócritas

  1. É muito difícil deixar de parecer hipócrita diante do que chama de “duplipensamento”. Caetano chegou a elogiar o movimento “funk carioca” talvez para não ser interpretado como elitista. Mas como apreciar um estilo de expressão que usa a precariedade obtida por efeito de estúdio? Cheguei a ouvir um desses produtores dizer que “suja” o som para não tornar o produto demasiado “bom”. A busca pela precarização do “discurso”, com a objetivação do corpo feminino, por eles, da mesma forma que dos homens, por elas, equaliza a pobreza de ideias e a torna consumível como produto pela elite econômica. Como trabalhador na área de eventos, incluindo casamentos em “buffets” caros, sei que em determinado momento os homens e mulheres pediram funks para descerem até o chão, cantando letras explícitas de cor e repetindo refrões fora do contexto social deles como “eu só quero ser feliz, andar tranquilamente na favela onde nasci”…

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  2. Eu acho que nós temos aí um problema de valor ético estético e de classe! O que a nossa sociedade consumista valoriza e quem tem acesso a esses valores ou pode ter acesso a esses valores! Como nessa sociedade, o acesso ao dinheiro resulta em obter poder ou mesmo comprar esse poder sobre as coisas e os outros, resta saber se essa objetificação resulta da luta pelo poder que obriga e reproduz uma mentalidade assujeitada a ser narcísica ou se é fruto de pulsões instintivas não sublimadas! Eu aposto na primeira opção!

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    1. Eu partiria de que o problema é biológico e cultural. Faz parte do imaginário comum ocidental, com ou sem diploma, de que precisamos controlar certos impulsos. Abordei dois pensadores que elaboram o tema no texto. Caso o “controle de certos impulsos” seja algo que você é contra, podemos elaborar um diálogo disso e partir para os outros assuntos.

      Você aborda a não sublimação, mas é necessariamente o contrário: hipersatisfação. É a não existência de um repertório de moderação, mas de um repertório de excesso, puxando os termos para o behaviorismo radical.

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  3. Emponderamento ou objetificação? Talvez a resposta certa seja: nenhuma das alternativas. Acredito que pode-se escrever um milhão e meio de teses e levantar outro tanto de hipóteses, mas, às vezes, a resposta mais simples é justamente aquela que não se passa pela cabeça de ninguém: as mulheres do funk e as mulheres do Dan talvez tenha apenas escolhido estar ali, seja por prazer, por fama, por dinheiro, exibicionismo ou qualquer outra coisa, não importa, todas são respostas possíveis. Insistir em rotular o comportamento humano e fazer com que todos se encaixem redondo dentro de teorias “universais” sobre o comportamento humano é o que está causando essa grande confusão que vivemos hoje. Um rótulo/teoria jamais vai conseguir abraçar ou explicar a imensa complexidade do comportamento/mente humana. No entanto, é a partir dessas “teorias” que movimentos ideológicos se apropriam com a finalidade de promover reengenharias socias, ou seja, para fazer com que todos nós nos esforcemos ao máximo para nos encaixarmos dentro de modelos ideais do que seria considerado o “cidadão ideal” e, claro, promover toda a sorte de neuroses devido aos conteúdos que terão de, necessariamente, serem relegados às masmorras do inconsciente… Ótimo artigo! Levantou hipóteses para reflexão. Abraços!

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    1. Obrigado pelo comentário!

      Talvez ao invés de “nenhuma das alternativas” seja “essas e muitas outras”, pois assim dá para incluir e excluir as diversas possibilidades do ser.

      Mesmo assim, o querer não é abstrato, separado, do ser humano. Ele é um dos sintomas da nossa existência como organismos humanos. Por isso a possibilidade de teorias universais sobre a origem dos comportamentos não é um problema; ela está atuando no campo da categoria “ser humano”.

      Esta é uma discussão difícil e muitas pessoas fazem suas propostas, mas não podem todas estarem certas ao mesmo tempo. A lógica da realidade não permite paradoxos, a não ser aqueles originados da incompletude das nossas capacidades epistemológicas.

      Um campo tão complexo, tão diversificado, nunca poderia ser imposto sobre as outras pessoas. A seleção de tais comportamentos deve ocorrer organicamente. Também discordo do uso de quaisquer conceitos para justificar utilitarismo e positivismo político. Fico feliz que, apesar de discordamos de certos elementos do tema, concordamos que não devemos enfiar goela abaixo do outro nessas ideias. Conversaremos e faremos nossos diálogos, acordos, contratos.

      Gostei da reflexão. Abraços!

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