A Desmistificação da Verdade

Hoje, na minha desprezível falta de organização pessoal, perdi o ônibus em direção à universidade. Após me sentar frustrado no ponto e perceber que faltariam meia hora para o próximo, decidi reler alguns parágrafos da penúltima versão de minha monografia. Retirei da bolsa uma quimera de palavras e rabiscos. Maltratada de tanto manuseio, das tantas tentativas de decifração sobre o que ainda lhe faltava.

Meu trabalho tenta se debruçar sobre a importância da liberdade de expressão para o desenvolvimento da ciência. Imagine que o sistema científico moderno funcione como uma esteira em direção a uma trituradora de ideias imbecis. Porém, sempre que, literalmente ou figurativamente, um fuzil é apontado a um pesquisador, é como se alguns dentes dessa máquina fossem propositalmente quebrados para que uma enxurrada de mentiras passassem ilesas por este vão que acabou de ser criado.

A minha pesquisa está fundamentada historicamente em documentos da explosão da usina termonuclear de Chernobyl e filosoficamente nos trabalhos em torno do contexto necessário para a produção científica, a epistemologia dos pós socráticos, Karl Popper e Thomas Kuhn. A conclusão é que a física natural não será afetada por uma falha de interpretação arbitrária, ela continuará seguindo a mais pura verdade sem nos dar a mínima. As pessoas sob um regime autoritário, vivendo e tomando decisões baseadas em uma mentira, continuarão colhendo os frutos podres de um fracasso que não ensina.

Ao lado do título “O confinamento científico na Segunda Guerra Mundial” está o primeiro comentário, nas letras do orientador mais genial e menos didático do departamento:

-“Seja mais específico”.

No rigor acadêmico, nem a sua capa pode ser perdoada.

Já havia lido algumas páginas e feito outras tantas de anotações quando o ônibus chegou. Na fila da catraca mal funcionando, uma mulher bem humorada que dava empurrões com o quadril para tentar girar aquela sucata, perguntou ao cobrador se não haveria uma lata substituta. Ele respondeu que aquela era a menos pior das opções disponíveis.

Imediatamente comparei a cena com a famosa ideia de que a democracia era o pior sistema político com exceção de todos os outros. Foi quando eu tive uma epifania de que a desfuncionalidade científica, o dente quebrado da máquina trituradora de ideias imbecís, também pudesse ocorrer em plena democracia, já que ela não é perfeita. A centralização do poder de decidir a validade de uma ideia não seria tão óbvia quanto se existisse um Ministério da Verdade, como no romance de George Orwell, mas ela ainda poderia existir de uma forma sutil. Sentei-me no ônibus e remexidamente me propus a escrever esta ideia. Quando terminei de anota-la, mal tive tempo para relaxar no acento. Haviamos chegado.

Nos corredores à procura do meu orientador, me disseram que o encontraria na sala de reunião geral. Ao bater e abrir a porta, arregalei os olhos para o agrupamento mais esquisito de doutores – reconheci talvez cinco e presumi que todos os outros também fossem. Haviam uns trinta deles sentados atrás de mesas que formavam um grande círculo. Todos equilibravam enormes pilhas de livros sobre a cabeça. As cortinas estavam fechadas e pelas tiras de luz que penetravam as suas frestas, eu enxergava a lenta fumaça exalada por alguns cigarros acesos. Confortáveis, alguns até com os pés cruzados sobre a mesa, eles liam, escreviam e passavam cartas entre si feito malabaristas, sem derrubar nenhum livro daquela pilha sobre a cabeça.

– “Caio! Sente-se ali que eu já vou tratar do seu caso”

Segui as ordens do meu orientador, pendurei a mochila no encosto da cadeira e me sentei de costas para aquela reunião esquisita, me perguntando o que diabos estava acontecendo, me questionando sobre o medo de ser testemunha daquele evento.

Vez ou outra virava o pescoço e forçava os olhos para os cantos, tentando colher de forma desapercebida mais informações sobre o que acontecia. Nessas espiadas, percebi que eles não trocavam apenas cartas, mas também livros, revistas e blocos de papéis. Também percebi que a maioria dessas coisas paravam no lixo e que aquele mesmo cesto pudesse ser o endereço final de minha monografia.

– “E então, cadê?”

Era meu orientador. Entreguei a tese em suas mãos, mas não parei de fitar a pilha de livros estática sobre a sua cabeça. Havia Sartre, Foucault, Hume, Kant, alguma coisa com seu próprio nome…

– “Não falei para você se aprofundar no conceito de epistemologia?”

Pausei a listagem e o respondi olhando nos olhos:

– “Mas foi o que eu fiz, expliquei melhor e com mais detalhes.”

– “Eu não preciso que você me explique tecnicamente as coisas que eu já sei. Eu preciso que você seja assertivo e me encontre novas relações. Eu não quero sofrer mais do que o necessário corrigindo suas coisas e você ainda me enche o texto com esse tédio?”

Aquela arrogância não era uma surpresa e eu soube ali que esta não seria a última versão do meu trabalho. Apertei os olhos com os dedos, mas logo voltei a atenção para os autores sobre aquela cabeça: Hegel, Platão, Agostinho, Wittgenstein…

– “Pfff!” – ele visivelmente entediado – “Eu vou ser sincero com você para tentar poupar o meu e o seu tempo. Isso aqui…” – apontando para minha tese – “…não é importante, mas vou ler por ser pago.”

Serrilhei os olhos e juntei as sobrancelhas sem esconder a minha raiva:

– “Como pode não ser importante? Nunca vi algum trabalho dessa universidade relacionando estes temas.”

– “Esqueça essa idealização. A ciência não progressiva! O conhecimento não é um quebra cabeça cheio de lacunas para você preencher com uma peça que faltava. A ciência é este círculo social atuando nas suas costas. Por baixo das medalhas de pós-graduação e conquistas Lattes, há um ser-humano repleto de vícios e limitações, como qualquer outro. Quando uma nova tese de mestrado vai parar em alguma mesa dessas, ela não será criticada por uma mente imparcial, mas por alguém que vem reforçando as suas próprias ideias dentro de um circulo limitado pelas discussões, pelos autores e projetos que sempre massagearam os seus egos. Os fundamentos teóricos que circulam alí dentro dificilmente serão colocados a prova, na maiorias das vezes serão reforçados por informações selecionadas, aquelas que não abalam as pilhas de livros sobre as nossas cabeças. Por isso, no sentido menos político da palavra, toda ciência é conservadora, todas as ciências são constituídas por uma hierarquia seletiva que se parece com esta sala. A sorte da humanidade é que não existe apenas um círculo, mas o seu azar é que só este aqui lhe importa.”

Enquanto ele acendia um cigarro como que se tudo que tivesse falado não fosse nada, eu fiquei mudo. Por mais que no fundo eu já desconfiasse que aquela era a verdade, eu gostaria que ela continuasse enterrada.

-“O seu trabalho não precisa ser importante para humanidade, só precisa agradar alguns primatas desta sala.”

Devo ter passado dias lá dentro. Lendo, escrevendo e revisando a minha monografia, adequando-a aos comentários incessantes do orientador. A maior parte dela se transformou no elogio de autores que poderiam estar sobre a cabeça dos meus jurados e com muito, mas muito cuidado, a hipótese final de que em um pequeno detalhe, algum deles pudesse estar enganado.

Apresentei este trabalho, todos amaram e eu acordei assustado no ônibus, com um colega me cutucando, avisando que havíamos chegado.

6 comentários em “A Desmistificação da Verdade

  1. Gostei do teu texto. Seu pesadelo esclarece o comportamento acadêmico, ou boa parte do acadêmico… mas a ciência é maior.. é aprisionada, mas também se liberta… mas também liberta… Lutar para que a ciência seja uma ferramenta de libertação, invenção, imaginação…mudar o mundo, enfim…

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    1. É… Deixando o exagero e o drama deste pesadelo de lado, não restam dúvidas de que este modelo científico acadêmico funciona, mas o ponto chave para que a roda da ciência continue girando é a descentralização deste mesmo modelo, ou seja, a existência de muito outros círculos acadêmicos, outros círculos intelectuais e a discussão que existe entre todos eles juntos. Ok, isso como uma visão mais panorâmica. Agora se você colocar o foco no aluno que não consegue ter o trabalho aprovado por que vive uma desilusão de que a ciência está de braços abertos para os suas descobertas “revolucionárias”, como que se elas não precisassem de uma forma e agradar certas pessoas de um certo círculo, além de ter algum conteúdo, você também perceberá que vender um ciência linda é perpetuar uma crueldade. Eu prefiro que ensinassem de uma vez a este aluno sobre essa tal forma, ao invés de negar que ela exista.

      Curtido por 2 pessoas

  2. Muito bom seu texto. Me senti dentro de uma “Matrix”, “A Origem” ou “Arquivo X”.
    A verdade está lá fora! Sempre esteve, oculta em suas leis.
    Basta olhar, como sempre orientava meu professor de Física Basica I. Com “olhos de lince!” Pq os círculos científicos podem até ser conservadores em si. Mas também são revolucionários entre eles.
    Gostei. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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