Negações Inúteis

A Internet caiu
Para que o filme que assistíamos travasse
E me desse a oportunidade de encher mais uma taça de vinho

Do balcão
olho para os pedaços de mim
E bebo
Vejo o meu marido brincar alegremente com nosso filho no colo
E continuo triste

Mas hoje não tenho raiva por não me sentir feliz
Não carrego a culpa
De não cumprir com a obrigação de me sentir completa
Na realização de um sonho

Antes fosse pela lucidez de uma filosofia madura
Onde eu estivesse em harmonia com a natureza impermanente de todos os desejos
Ou taoista
Onde me atentasse para o lado positivo da melancolia e encontrasse a calma
Ou pessimista
Onde a felicidade fosse sequer considerada

Este meu conforto é como visita em sonho de Afrodite
A um soldado espartano prestes a morrer na batalha do dia seguinte
É como se eu me trancasse no banheiro, cortasse os pulsos
E a paz fosse o sentimento dos últimos instantes para o fim de tudo
Mas após o último sopro
O tal fim não existisse

Já descobri a beleza nos seus esconderijos mais trágicos
Já comecei uma ode para cada centímetro daquilo que presenciei
Já senti na pele a imensa pena da mais singela hipótese de simplesmente acordar
E ainda assim não existir

Mas só sei disso porque está registrado em versos antigos
Quando os leio
Não encontro memória ou qualquer outro vestígio químico de que aqueles sentimentos
foram um dia os meus
Só não tenho a certeza de que foram escritos por um estranho
Pois os encontrei em um caderno
Dentro de uma gaveta da escrivaninha de uma sala cuja porta tinha meu nome
Há neles a minha letra

Infinitos pensamentos
São possíveis aos nossos finitos símbolos
Mas ainda assim
Não me sinto única ao escrever estes versos

Maldita seja a genética e por fim a cultura
Que nos condenam a algumas centenas de milhares de linhas de raciocínio
Onde algumas dezenas de milhares terminarão neste mesmo poço
Nesta mesma estranheza
Nesta mesma falta de irmandade com os seres e as coisas

Tenho crises de fé em pleno ateísmo
Carrego a impressão de que por trás de cada camada da realidade
De cada nova partícula atômica esfacelada!
Estivéssemos mais próximos de matematicamente concluir
Que tudo é um sonho
Uma prisão compacta na prateleira de uma realidade inacessível
A invenção de um outro ser tão inútil quanto somos
Tão estranho quanto tudo
E que no seu próprio tédio
Nos assiste

De todos os consolos metafísicos
Das tantas inspirações perpetuamente platônicas
Apeguei-me logo a esta
Nem mais racional nem menos estúpida que qualquer outra
Superior apenas na forma com que consegue ser inútil

A breve posteridade se encontrará de frente a este espelho
E se verá num reflexo codificado em sentimento

Se passivamente niliista, sentirá a dor de sempre
Multiplicada pelos tantos versos que profundamente entendeu deste poema
Se niilista, mas satisfeita, passará pela raiva ou pelo desprezo
Mas repousará na profunda pena da pessoa que o escreveu
Se nem uma nem a outra, sentirá um prazer sem sadismo
Mas com a pureza
De conseguir enxergar beleza
Na construção lógica destes inúteis pensamentos

Pois onde haveria de estar a utilidade destes versos
Se não como mera prova filosófica de um trânsito em julgado?
A dedicatória de uma tese prepotente que jamais será publicada
Ou como uma porca herdada
Cheia de moedas velhas que já não valem nada!

Prometi a mim mesma que nunca mais fumaria
Mas há pouco, sem pesar, acendi e terminei um cigarro
Como que se o meu credor houvesse sido assassinado
Para que minhas dividas fossem esquecidas

Neste instante me dou conta que não precisarei mais do álcool ou do tabaco
Pois da sacada
Ouço meu marido comemorar que a Internet já voltou

Um comentário em “Negações Inúteis

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