Desdobre estes joelhos

A admiração das pessoas cínicas pelas ideias sustentadas por escritores considerados a personificação da crueldade, tal qual Ayn Rand, se dá pelo mesmo motivo que todos admiram as ideias de Nietzsche.

A voz destes demônios simplesmente ecoa que o processo de superação de si mesmo é o melhor trajeto para se alcançar algo próximo do que convencionamos chamar de felicidade e que no fundo, nada mais é do que o resultado de conseguir se enxergar caminhando em direção a algum propósito. Muitas vezes o infeliz está no caminho certo, mas não se dá conta e de nada adianta. Outras vezes o infeliz não está neste caminho, mas ilusoriamente enxerga-se nele e compra para si o risco de uma desilusão futura. Esta é a serventia da auto-reflexão, de encarar o próprio abismo.

Ter algum propósito em si também é essencial. O mal do ateu passivamente niilista, por exemplo, é subestima-lo. Encontrar diversas provas na realidade sobre a insignificância da própria espécie pode ser debilitante, mas não é incontornável. Por mais que este ateu não possa designar um significado para a existência de tudo, ainda é possível encontrar um propósito para si próprio.

Ser promovido não é um bom propósito, pois a conclusão dele não depende exclusivamente de si, às vezes dependerá de um chefe muito babaca. Porém, estudar, gesticular e discutir de maneira mais segura sobre os processos em torno do seu trabalho, dependerá apenas de você. O resultado talvez não seja o reconhecimento do seu chefe, mas com certeza será a expansão do seu repertório sobre o funcionamento de uma empresa e consecutivamente o aumento de sua confiança para encontrar um novo emprego.

Mudar o mundo não é um bom propósito. Porém, diariamente buscar o entendimento sobre as ferramentas que moldam o mundo, ao invés de simplesmente querer muda-lo da noite para o dia, dependerá apenas de você. Qualquer valor realmente significativo que a humanidade venha colocar no que for de autoria sua, será o resultado deste entendimento diariamente lapidado.

Este foco egoísta na defesa e lapidação da própria individualidade ou como talvez dissesse Aristóteles, na sua singularidade, não tem nada a ver com a demonstração de superioridade nem com a dominação do mais fraco, mas sim com deixar de buscar um bode expiatório para o seu fracasso. Não foram os imigrantes que te roubaram os empregos, não foram os judeus que te fizeram perder a guerra nem foram os burgueses que inventaram a pobreza. A matriz do seu sofrimento é derivada de algo mais complexo do que isso. Muitas das engrenagens que dificultam sua vida são irreversíveis, é verdade, estão além do seu controle, mas ainda existem as que são movidas por decisões inteiramente suas.

Não espere que as engrenagens superiores decidam parar para te ajudar. Não se engane com a idealização de uma sociedade perfeita, oriunda de uma sequência magnífica de impecáveis decisões políticas, porque as limitadas opções frente às reais situações sempre apresentarão um custo. O preço da democracia será uma cadela da ditadura sempre no cio e o preço da liberdade de expressão será ouvir os berros dos maiores idiotas.

Os tais demônios citados lá em cima, ensinam que a maioria das decisões importantes sobre a sua vida também terão um enorme custo a ser ponderado, pois ao lado do sentimento de motivação, propósito e significado que as grandes responsabilidades podem te proporcionar, virá a ansiedade de um possível fracasso, onde o maior culpado não será ninguém além de você. Este é o grande fardo de Atlas quando apoia o próprio mundo sobre as costas.

Estas estão longe de serem inofensivas, exatamente por serem poderosas. Quando o nazismo, na necessidade de uma representação intelectual e filosófica, olhou para Nietzsche, não viu uma tentativa de reforma do homem através de uma ideologia heróica, viu o líder religioso de uma seita racista, onde os fracos deveriam ser governados pelos fortes. Bastou meia conclusão sobre uma vasta obra filosófica para um líder autoritário conseguir fundamentar sua teoria de dominação.

A teoria sobre a destruição do povo nórdico, uma vez defendida pelo filósofo, foi feita pela mão ensanguentada de um ideal vitimista, que mais tarde foi contraditoriamente adotado pelos nazistas e apontado contra os judeus. A má compreensão fascista sobre Nietzsche se deu pelo fato dos auto-proclamados arianos não compreenderem que a metáfora do super-homem deveria se apresentar na alma de cada indivíduo livre, não como encarnação de um único comandante.

O ideal nietzscheano desromantizará o progresso da humanidade enquanto os grandes líderes existirem, enquanto a individualidade não for plenamente exercida, enquanto não houver solidez nos propósitos de cada ser humano, pois se os ditadores nos governam, é porque ainda estamos todos ajoelhados e de super-homem não temos nada.

Um comentário em “Desdobre estes joelhos

  1. Ótima reflexão. Raulzito dizia que é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro. O sistema, por um lado, brutaliza o indivíduo. O indivíduo, por sua vez, se acomoda em meio a animalidade. Temo ser esta a sina dos que almejam a universal emancipação individual: nem todos a desejam. E se a máxima de Bakunin “a liberdade do outro estende a minha ao infinito” estiver correta, talvez tal emancipação fique à distância da linha do horizonte. No entanto, não seria pedir demais que estipulássemos um “common ground” menos instável do que as tiranias e seus protótipos. Seguimos.

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