Em um mundo de ovelhas

Certo dia, o mundo acordou diferente. O céu se parecia com uma peneira; as nuvens formavam os remendos que, entrelaçados, impediam a entrada da forte luz do Sol, mas as várias fissuras ainda permitiam que grossos feixes luminosos deste astro invadissem a paisagem. A sensação era de estar na presença do divino. “Há luz apesar da escuridão”.

O despertador começou a incomodar perto das oito horas da manhã. “Começando mais um dia atrasado, ótimo para o currículo”. Por um momento, Guilherme viu horas de imagens de outras manhãs semelhantes àquela passarem por seus olhos. O quarto estava desarrumado, com os sapatos em cima de roupas no chão e embalagens de variados produtos repousavam sob uma fina camada de pó. Nos cantos, havia dunas com o acúmulo de poeira e os pêlos pareceriam ninhos de coelhos, ou ratos. A função do armário é meramente estética; entretanto, este não está ali por livre escolha. Há alguns livros espalhados em três prateleiras e alguns no armário: “Não lembro qual idéia tive para deixá-los ali”. Livros sobre finanças, marketing pessoal e autoconhecimento. Não importava muito, na verdade.

Ao levantar, com o pé esquerdo, Guilherme procura os vãos entre os objetos que estão no chão para pisar. Tickets do cartão de crédito, folders de publicidade, anotações diversas, fones de ouvido, incensos, garrafas d’água e certos indistinguíveis amontoados de coisas. O campo era bem minado. Bitucas de cigarro e filtros avulsos para enrolar maconha também estavam presentes. Nada daquilo era agradável ao seu próprio corpo; o desconforto estava presente, mas não era externalizado em palavras. Talvez nem na própria percepção. Algo tão natural, que se fazia invisível para a consciência. Ao chegar no banheiro, se depara novamente com o chão grotesco, o ninho de coelhos, ou ratos, estava ali. Mesmo a aparência sendo caótica, promovia alguma sensação de conforto. “Desde quando a vida vale a pena?”. Seu reflexo no espelho estava embaçado. “Desde quando aparência importa?”. Pegou a máquina de barbear e eliminou os pêlos que ousavam invadir o pescoço. “Exigências do emprego…”, pensou. Preferia desse jeito, mas não sabia se era uma preferência legítima ou realmente uma obrigação com a sua imagem social. Ultimamente, todas essas coisas não estavam claras. Depois colocou a primeira roupa que estava ali amontoada no armário; no caso, uma camisa cor salmão lisa e uma calça jeans clara.

Perdeu o ônibus das dez horas, que o fazia chegar no trabalho no horário. O próximo iria chegar apenas às dez e meia da manhã. No ponto, uma mulher negra sentava-se ao lado de um homem de terno. Ela segurava sua bolsa com firmeza em cima do próprio colo. E o homem também segurava sua pasta com firmeza em cima do próprio colo. Eram dez e meia; pontualmente, o ônibus chega: “Até que essa privatização não foi tão ruim assim”. As placas de proibido fumar e proibido ouvir música sem fones de ouvido sempre chamaram sua atenção. Para os três adolescentes nos bancos do fundo, não parecia ser assim. Acenderam um cigarro e escutavam música sem os fones. O forte cheiro se instalou ao longo dos assentos; e as batidas repetitivas ecoavam pela lataria. A fim de não causar tanto estorvo, as baforadas eram direcionadas para fora da janela e sempre que fosse o cigarro fosse estacionado, alguém ficaria encarregado de segurá-lo para fora da janela.

Após quarenta minutos, Guilherme chega ao seu local de trabalho. Quando se levantou para sair do ônibus, outras pessoas que se encontravam mais próximas das portas também chegaram aos seus destinos. Duas destas pessoas estavam sentadas juntas na dupla de cadeiras disponíveis naquela fileira. Aparentavam ser mãe e filha, apesar da diferença de idade ser ilusoriamente pequena. A simplicidade das roupas o lembrou de seus familiares que moram no campo. “Isso foi há anos”. A outra pessoa estava sentada no conjunto de cadeiras ao lado. Um senhor com terno e certas medalhas penduradas, “talvez o lembre de seus dias de glória”, pensou. Ele ameaçou sair, a mãe percebeu e ofereceu passagem, ação feita também pelo senhor, pois percebeu que coincidiu com a saída delas. Durante algumas dezenas de segundos, aquele trio ficou empacado naquela situação. A porta de saída se encontrava à frente. Guilherme estava esperando a resolução daquele conflito frívolo e infinito para sair. “Eu vou passar”. E passou.

A empresa de produções audiovisuais apresentava uma arquitetura convencional: um bloco retangular de concreto. A pintura era o destaque, apresentando mais cores que o arco-íris, sob a ordem das mais diversas texturas. A distribuição desta estética parecia aleatória. Provavelmente era.

Sua função era tão confusa quanto o visual do prédio: trabalhava no setor de publicidade e propaganda e vez ou outra produzia algum tipo de design para alguma marca; às vezes escrevia ideias no arquivo compartilhado do seu setor, que sempre indicava certas diretrizes; certa vez foi alocado para assistir ao chefe em tarefas que não se aproximavam de nenhuma maneira daquilo que se espera de alguém que trabalha numa empresa dessas. “Qualquer coisa para subir de cargo”.

As pessoas se vestiam como modelos de desfiles conceituais. Pareciam reproduzir o caos estético do prédio em suas vestimentas. Os narizes empinados acompanhavam os remédios contra as mais variadas condições mentais e os milhares de seguidores nas redes sociais. Os boatos sempre rolavam, principalmente por meio das mensagens privadas que todos recebiam.

Guilherme havia alguma ambição para estar ali: alguns funcionários daquela empresa já foram chamados para trabalhar em empresas maiores. Sempre houve a dúvida se são pelos frutos de seus trabalhos como marqueteiros e designers ou pelo alto número de acessos em seus perfis. Seu sonho não devia estar tão longe de se realizar: alguns trabalhos seus foram premiados. Seu foco eram os celulares e seus comerciais mostravam o quão conectados podemos ser com tais aparelhos. As situações sociais se intensificam e não o contrário. A beleza dos sorrisos das pessoas com as diferenças mais diferentes no mundo, por mais que maquiadas pelos editores, vendia a possível felicidade que todos procuravam. Suas páginas, se somadas, têm duzentos mil seguidores. Suas publicações têm incontáveis visualizações. Ninguém nunca viu o quarto desarrumado, as noites inundadas de lágrimas ou os vômitos de um possível alcoolismo. Quando alguém entra em alguma das empresas grandes, esses números só aumentam. Combustível para os encontros em motéis e noites solitárias em seu quarto.

As horas passaram tão vagarosamente, que templos viraram pó. Ideias foram colocadas no papel, nos arquivos e jogadas no ar, com desdém. O relativo sucesso não mudou sua condição financeira e Guilherme precisará voltar à pé para sua casa. “As fotos em restaurantes caros saíam baratas”, pensava. Foram quarenta minutos de ônibus; à pé, seria necessário três horas, caso não pare em nenhum lugar. E não tinha como não parar. Eram dezenove horas, o estômago se fazia presente com seus roncos. Parou em uma lanchonete famosa no caminho, tirou algumas fotos e comeu a comida, que esfriou de tanto esperar suas mordidas. A uma da manhã, chegou em sua casa. A cama foi tão convidativa quanto a prostituta mais linda e formosa é, principalmente depois de diversos drinks.

O próximo dia parecia perfeito. O céu estava limpo, ao ponto de ser possível ver os grandes prédios mais distantes. Ao olhar o celular, o relógio digital iluminava os números que representavam as sete horas da manhã. A situação do apartamento parecia pior. Se questionou se havia bebido no dia anterior. Haviam mais objetos e mais sujeira. Talvez eles sempre estivessem ali, presentes, mas se fizeram vistos agora. “Bom, amanhã eu arrumo”. O trajeto até o banheiro foi acompanhado por um furo no pé, devido a um caco de vidro de alguma garrafa que havia quebrado há alguns dias, ou ontem. Mas a grande surpresa veio quando olhou no espelho. Seu reflexo estava tão claro quanto a presença de toda a realidade fora da sua janela. Cada detalhe parecia limpo de quaisquer mediações; o que ele estava vendo era de fato ele. Talvez fosse até mais real que ele. Cada um dos pêlos de seu rosto. Cada centímetro de seu focinho alongado e de seus chifres. Cada espaço nos quais as cores marrom e branco se marcavam, como gotas de chocolate que derreteram em uma xícara de leite. Seus olhos, marrons e com as pupilas semelhantes a retângulos negros. Era evidente que Guilherme estava vendo o próprio reflexo: o de uma ovelha.

“Não estou bem”. Ligou para o trabalho e disse que não iria: “Pode não vir, mas será descontado do seu salário”. Ao lembrar da longa caminhada do trabalho até a própria casa, inferiu ser melhor não arriscar que algum tostão lhe escape pelos dedos. Apesar da aparente alucinação, não sentia mais nada. Era um dia como qualquer outro, apesar da beleza do tempo fora de sua casa. Mas a diferença marcante era sua aparência de ovelha.

Tomou o café da manhã. Não pareceu que sua boca tinha as dimensões daquele focinho. Se dirigiu ao ponto de ônibus. Botou os fones de ouvido, esperançoso que sua playlist causaria alguma distração e que seu problema evaporasse. Foi tão efetivo que quando o calafrio veio, pareceu partir sua pele: as outras pessoas também se pareciam com ovelhas. O dia não aparentava ter nada mais diferenças; apenas as cabeças de ovelha das pessoas. As mesmas situações de comércio, crianças brincando na rua e os carros minando o ar puro.

No ponto do ônibus, percebeu que a mulher e o homem estavam novamente lá e usavam roupas semelhantes às do dia anterior, mas as faces de ovelha estavam tão presentes quanto os próprios batimentos cardíacos. Talvez apenas alguns neurônios tenham desaparecido. Resolveu perguntar: “Bom dia… Por acaso aconteceu alguma coisa de diferente com vocês hoje?”. Ambos olharam assustados para ele, que suava intensamente. Seus feições eram as de um ator ruim tentando parecer apático. Estavam assustados, mas atestaram passar por um dia normal. “Absolutamente nada de diferente?”, insistiu. A mulher respondeu: “acho que ando muito cansada por estar trabalhando e, além disso, tenho crianças para cuidar”. O homem, após ouvir o relato, também culpou o cansaço. “Talvez eu também esteja muito cansado… Após o trabalho, irei para o hospital”, concluiu Guilherme.

Todas as pessoas que passavam por ele tinham a aparência de ovelha. Nos carros, ônibus, dentro das lojas, nos outdoors e nos comerciais. Muitos tinham os olhos arregalados, outros com o cenho franzido, outras aparentavam estar agindo sem exageros nas suas expressões. Mas ninguém estava parecendo incomodado com alguma coisa. Ou, pelo menos, não estavam exteriorizando. Quando a maioria aparenta normal, achamos que nós que somos os loucos.

Publicado por Vinicius Souza Vitalli

Psicólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (Bachelor's in Psychology). Metendo o louco pelo mundo para ver no que dá. Atualmente in Dublin. (Currently living in Dublin). Tenho o objetivo de auxiliar as pessoas com seus respectivos objetivos.

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