A pós-modernidade importa?

Testemunhar qualquer liberal ou conservador defendendo a lógica do pensamento pós-moderno é motivo de surpresa para os intelectuais contemporâneos, mas não deveria.

Geralmente, a impressão que todos do círculo de liberais inteligentes têm sobre os pós-modernos é que eles não acreditam na existência da verdade, pois defendem que tudo é relativo. Geralmente, todos do círculo de socialistas inteligentes, quando de frente a uma evidência científica que vai contra suas teorias políticas, invocam a relatividade e o viés eurocêntrico da ciência. Geralmente, todos eles estão errados.

Por mais que as ciências humanas tenham a fama de maior inimiga do pensamento cartesiano, ou seja, do racionalismo da modernidade, as outras ciências também o enfrentam. E talvez a biologia tenha formulado a crítica mais fundamental de todas.

Segundo a teoria da evolução, todos os seres vivos são como são por causa de um mesmo conjunto de leis observáveis na natureza: a reprodução dos organismos, a imperfeição das cópias genéticas e alguma seleção durante um intervalo de tempo.

Todas as habilidades físicas e cognitivas da espécie humana, é o resultado do acúmulo de modificações genéticas que, de uma forma ou outra, ajudaram todos os seus ancestrais a encontrarem comida, se protegerem de predadores e por consequência, se reproduzirem. A mesma coisa para todas as habilidades de todas as outras espécies. Logo, o mecanismo que deu origem ao seu cérebro e a sua capacidade de raciocinar, também deu origem ao cérebro dos outros animais.

Este silogismo trás a tona a indiscutível imperfeição da racionalidade humana, pois confiar de maneira incondicional no cérebro do mais genial dos humanos e ao mesmo tempo se dar conta de sua origem adaptativa e imperfeita está fora de cogitação.

Evolutivamente, o que te trouxe aqui não foi uma proximidade cada vez maior com o divino nem com a razão pura, foi uma mistura de ordem com uma pitada de caos e muito, mas muito tempo.

Este primeiro golpe no racionalismo, na ode à razão pura, no instrumento de tradução perfeita das leis naturais, veio de Darwin, mas não houve nocaute. Então, um filósofo, nos lembrou da potência racional, afinal: “Deus está morto e nós o matamos”.

Ao invés de ler esta citação de Nietzsche e encontrar um herege blasfemo, entenda que sua teoria filosófica é muito mais profunda e diversa. Ele não é um ateu revoltado com Deus e em busca de todos os meios possíveis de ofender os seus fiéis. Na verdade, a famosa frase resume a ideia de que a modernidade, a ciência e a razão, guiariam o homem para a emancipação de tudo que é irracional e metafísico, incluindo as religiões, e que o vazio deixado seria preenchido por valores morais e éticos completamente racionais, escolhidos e criados de forma consciente.

Pessoas que despreocupadamente moram no vigésimo terceiro andar de um prédio, seriam um exemplo prático dessa substituição, pois a tranquilidade de morar nas alturas não vem da fé de que Deus impedirá que o prédio caia, mas de uma referência do mundo real de que os prédios se mantém mais em pé do que deitados graças à engenharia. As incertezas que mantém a fé viva seriam cada vez menores e a culpada disso tudo seria a razão.

Existe uma diferença muito grande entre o pensamento cartesiano e o darwiniano, porque há uma diferença muito grande entre ter acesso sem filtro à realidade por meio da razão e ter um acesso incompleto por motivos evolutivos que influenciam e limitam a própria consciência.

É sobre esta racionalidade cerceada por coisas ainda incompreensíveis que os pós-modernos nos alertam. E não, essas coisas não são energias cósmicas, não existe nada metafísico que possa nos limitar. Apesar de complexos, nossos limites psíquicos são muito mais palpáveis do que isso. Freud provavelmente tenha sido um dos primeiros a colocar o pé neste universo desconhecido que a psicologia muitas vezes se esbarra.

Significa então que a ciência deixou de ser a melhor ferramenta de investigação sobre a realidade? Não, mas significa que nós, criadores dela e graças a ela, sabemos que somos ainda mais frágeis e limitados do que imaginávamos.

2 comentários em “A pós-modernidade importa?

Deixe uma resposta para Eder Capobianco Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: